Meu amigo Marcus Ricardo “4 Ever” Rampazzo

Meu amigo Marcus Ricardo “4 Ever” Rampazzo

Por Marco Antonio Mallagoli
Revisão do texto – Marcia Maluf

The Art of Dying (A Arte de Morrer) – George Harrison

There'll come a time when all of us must leave here (Vai chegar uma hora que todos nós vamos embora daqui)
Then nothing sister Mary can do (E nada que a irmã Mary possa fazer)
Will keep me here with you (Vai me manter aqui com você)
As nothing in this life that I've been trying (pois Nada nesta vida que eu já tentei)
Could equal or surpass the art of dying (Pode ser igual ou ultrapassar a arte de morrer)
Do you believe me? (Você acredita em mim?)

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Início de uma grande amizade

Conheci o Marcus Rampazzo em 1977, quando ele foi à minha casa levando um LP Pirata – que eu prefiro chamar de alternativo – chamado “Sweet Apple Trax”, duplo com uma foto incrível na capa, dos Beatles tocando “Revolution”.
Até então, eu tinha vários discos alternativos, mas a grande maioria da “Swinging Pig” ou seja, as capas eram em papel desenhado, embora o vinil fosse colorido, mas o som não era dos melhores, pois era uma tecnologia que ainda estava engatinhando.
Achei o disco maravilhoso e colocamos para ouvir enquanto conversávamos. Tínhamos muito em comum – Beatles - e o papo rolou solto.
Foi então que ele disse que era professor de música e tocava guitarra; eu, mais que depressa, disse a ele que também tocava e peguei “meu pobre violão” e comecei a tocar “Blackbird” para ele, música que eu impressionava todo mundo quando tocava.
Vejo ainda o rosto dele dizendo: “Pára. Me dê aqui o violão.”
Daí ele o afinou em “oitavadas” e começou a tocar a música na minha frente.
Quando o vi tocando, jurei que nunca mais tocava violão na vida: o cara era fera, maravilhoso. Percebi na hora que estava diante de um expert.
Eu tinha essa sensação quando ia assistir o filme “Help!” e via os Beatles tocando, e então jurava que nunca mais encostaria a mão em um instrumento na vida, pois sabia que nunca iria chegar aos pés deles.
Foi assim que me senti de novo naquele momento.

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Mas isso não atrapalhou a visita, e nossa amizade começou ali, ficando cada dia mais sólida.
Fui à casa dele, e ao ver a quantidade de instrumentos originais, iguais aos dos Beatles que ele tinha, fiquei abismado.
Nesse dia, ele tocou o solo da música “The End”, fazendo em uma só guitarra o som das três guitarras tocadas por John, Paul e George no disco, ao vivo, na minha frente. Não acreditei naquilo, devido à perfeição dele ao tocar. Parecia que eu estava vendo os três tocando na minha frente: o mesmo timbre, mesmo som, ou seja, igual ao disco mesmo. Nunca podia imaginar isso.

Nascimento do “Beatles 4Ever”

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Ele estava montando a banda “Beatles 4Ever” com o Ronaldo Paschoa – guitarra e vocais (John), Vitão Bonesso – bateria (Ringo) e Celso Anieri – baixo (Paul) e, lógico, ele na guitarra-solo e vocais (George).
Além de ter sido pioneiro na formação da primeira banda cover Beatles no Brasil, eles foram atrás de instrumentos, roupas, perucas, enfim, tudo que poderia lembrar os Beatles em um palco de Teatro.
Nessa época, as bandas tocavam Beatles, mas tocavam também músicas de outras bandas/cantores, ou seja, não existia até então uma banda dedicada apenas a tocar Beatles.
E foi então pensado e começamos a produzir um show em Teatro, copiado da peça “Beatlemania” que estava na Broadway, mas na minha opinião, muito melhor que a original americana.
A edição brasileira, além dos músicos da banda, contava com o Marcus Rampazzo, “hours-concours” como George Harrison no mundo.

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Na rádio 97 FM, em 1993, no programa Revolution

Na época, aqui em São Paulo, tomei conhecimento de uma banda chamada “Comitatus” que fazia grande sucesso em um bar na Alameda Franca, chamado “Calabar”, mas isso é uma outra história que fica para uma outra vez.

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No início dos shows da banda “Beatles 4Ever”, eu fiz uma trilha sonora com trechos de músicas dos Beatles mixadas e eu projetava slides com fotos inéditas, na época nas paredes laterais do teatro, enquanto eles trocavam de roupa a cada nova fase.
Logo nas minhas viagens aos USA, consegui alguns filmes super-8 e comecei a alternar slides com filmes, o que era uma grande novidade e deixava a plateia maravilhada, além, lógico do som perfeito que a banda reproduzia no palco.
Participei de muitos ensaios deles, vi “n” brigas nos ensaios, que depois acabavam em pizza – literalmente, pois muitas vezes, após terminar o ensaio íamos comer pizza mesmo – na Moóca, mano....hehehe....

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Ajudei com palpites, dicas, roteiros, trouxe alguns instrumentos dos USA e outras coisas necessárias para a peça, enfim, participei dessa fase inicial como se fosse da banda, por amor aos Beatles e para ajudar os amigos.
Como eu tinha amizade nas rádios, além da divulgação dos shows, logo consegui locutores que gravassem os roteiros escritos por mim para a troca de roupas e fases, e a coisa foi ficando cada dia mais aperfeiçoada.

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Fim de um ciclo

Fui até uma fase em que levaram um produtor teatral – não me lembro o nome dele – que na reunião disse que ia colocar a escada da cena de “Your Mother Should Know” no palco do teatro.
Ao perguntar como ele iria fazer aquilo, pois eu sabia que não tínhamos teatros desse tamanho e nem tecnologia – estávamos no início dos anos 80 – no Brasil para fazer isso, ele disse: “Não se meta, eu me viro”.
Desisti da banda, sai da equipe, pois sabia que aquilo não iria dar certo, e eu não queria participar daquilo, mas a amizade com eles continuou a mesma.
E esse produtor logo caiu fora.
Continuei a ir aos shows, fazer as projeções por mais um tempo, depois fui literalmente demitido – sem mágoas, e colocaram outro em meu lugar, usando minha criação. Mas sai numa boa. Acho que meu ciclo com eles havia terminado.

Amizade e admiração

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Vira e mexe, eu ia à casa do Marcus - sempre recebido por dona Yolanda, a sogra meio sisuda, bem fechada, apenas cumprimentava, mas nunca dava abertura para um papo, embora sempre me recebesse bem, ao contrário da mãe dele, coincidentemente também dona Yolanda, que quando falávamos no telefone era por um longo tempo e o papo fluía, dávamos muitas risadas - ter aulas ou bater papo, levar alguma coisa, etc.
Lembro de uma das vezes em que ele estava dando aula e um mosquito começou a incomodar a todos. Ele estava com a guitarra mostrando ao aluno como tocar, eu babava vendo, quando de repente, ele jogou a palheta na mesa e disse: ”Ganha uma palheta quem matar esse mosquito”.
Eu quase caí no chão de tanto rir com ele. Esse era seu jeito: simples e espontâneo.

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Quando fui tirar a linha de baixo da música “Taxman” com ele, ele me mostrou a técnica de acelerar o vinil em 45 rpm para poder ouvir melhor o baixo e tirou nota a nota a música toda. Mais uma vez, fiquei impressionado.
Ele era assim, detalhista ao extremo, exigente demais quando se tratava de Beatles, fazia questão de tocar cada música na região certa, com a guitarra certa, timbrava a guitarra e o amplificador, pois ele queria o mesmo som do disco, o que eu achava incrível, pois essa era a minha ideia de Beatles também.
Mas ele sabia fazer isso como ninguém mais que eu tivesse conhecido ou ouvido tocar. Era único.

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Quando nasceu a segunda filha dele, que ele chamou de Lizzie, eu e o Marcio Rezende tínhamos ido à casa dele e a sogra nos avisou do nascimento da filha e que eles estavam no Hospital.
Nós fomos para lá e quando chegamos no quarto, a esposa dele, Beth, estava na cama e a Lizzie veio para mamar, mas nem sinal dele.
Daí a Beth nos disse que ele deveria estar no carro; fomos procurá-lo no estacionamento e lá estava ele, na Mercedez dele – igual à do George – lendo a revista “Beatles Monthly Book”. Bem típico dele.

Beatles 4Ever + Revolution

There'll come a time when all your hopes are fading (Vai chegar um tempo em que todas as suas esperanças vão se dissipar)
When things that seemed so very plain (Quando coisas que pareciam corretas)
Become an awful pain (Se tornam doloridas)
Searching for the truth among the lying (Procurando a verdade entre as mentiras)
And answered when you've learned the art of dying (Respondidas quando você aprende a arte de morrer)

George Harrison

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Banda Revolution + 4 Ever - Mallagoli no baixo, Rampazzo na guitarra-solo,
Vitão Bonesso na bateria e Marcio Rezende na guitarra-base.

Quando a banda “Beatles 4Ever” deu uma pausa, praticamente sendo desfeita nos anos 80/90, ele veio tocar comigo na banda Revolution, a convite meu e do Marcio Rezende – isso após a banda Revolution ter sofrido várias trocas de componentes, sendo que nessa época, o Vitão Bonesso tocava conosco, e dessa forma, éramos “meio Revolution”, “meio Beatles 4Ever” – e apesar de vê-lo tocar e ter participado de algumas canjas com ele tocando, dessa vez era diferente, pois ele iria tocar o show inteiro ao meu lado.
Muitas vezes, eu me pegava parado olhando-o tocar, e até esquecia que eu fazia parte da banda.

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Se alguém errava, ele dava bronca na hora, no meio da música e isso gerou algumas discussões minhas com ele, pois eu dizia a ele para esperar acabar a música para depois dar a bronca, pois o público muitas vezes percebia o erro dessa forma, e se ele ficasse na dele, ninguém notaria.
Mas ele era inflexível nesse ponto, acho até por causa da simplicidade e mania de perfeição dele.
Por causa disso, tínhamos no palco altas discussões, mas depois do show nenhum resquício ficava.

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O grande drama era ir com ele assistir alguma banda cover Beatles; se os caras errassem algo, ele levantava e ia embora, e dou razão a ele por seu perfeccionismo, mas muita gente não entendia sua reação.
Numa época, comecei a agir assim por influência dele, mas depois percebi que eu era um dos poucos que via os erros das bandas e que o público nem notava esses erros, e com isso, comecei a ficar antipático para certas pessoas de bandas que eram meus amigos.
Percebi que ele podia fazer isso, eu não.

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No show do Paul no Maracanã em 90, ele chegou a criticar os solos do McIntosh, e com certa razão, e eu disse a ele que se o Paul tinha escolhido o cara, ele tinha liberdade de improvisar e o Paul aceitava isso, mas confesso que ele tinha razão em muitas coisas, e acho que ele “cairia como uma luva” na banda do Paul.
Aliás, ele sempre criticou os guitarristas que tocam com o Paul e eu consigo entender a ótica dele, pois se ele era capaz de fazer e o cara tinha sido escolhido pelo Paul e ganhava super bem, porque não fazer o solo correto?
Sei que isso pode gerar polemicas, mas é verdade, e eu acho que ele estava certo.

Fizemos juntos várias palestras e apresentações acústicas de Beatles em Saraiva, escolas de inglês, etc....e ele sempre deixava as pessoas abismadas com seu talento.

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Bons tempos...

Memórias e boas recordações que não acabam mais.
Mas ele não era santo; muita gente o achava chato, pois ele tinha suas manias, e por sua simplicidade e ingenuidade, muitas vezes falava as coisas e feria pessoas, mas ele não se tocava disso. Tipo o “Sheldon” da série “Big Bang Theory”. Coisas de gênio.

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Em 1979, George Harrison veio ao Brasil ver a corrida de Formula 1 em Interlagos/SP, a convite do Emerson Fittipaldi e ficou no Hilton Hotel, que na época ficava na Av. Ipiranga, onde todos os pilotos ficaram e ele ficou com o Jackie Stewart, que por ser um dos pilotos principais da corrida, queria toda atenção pra ele, e nos boicotou o máximo possível, quando viu que não ligávamos pra ele, que só queríamos falar e ouvir o George.
Fui ao Hotel e consegui ver o George mais de 8 vezes, e em todas elas falei com ele, e chamei o Marcus, mas ele foi lá apenas uma vez, levou um violão na esperança de tocar com o George ou vê-lo tocar, mas ele não chegou nem perto do ídolo.
Marcus chegou quando George tinha acabado de subir para o quarto e ninguém sabia quando ele iria descer de novo; puro azar, ou era o destino, vai saber.
Em 1988, fui a Los Angeles para passar uma tarde com George Harrison e não tive como levar alguém mais comigo, mas levei uma fita k-7, que o Marcio Rezende me deu com gravações do Marcus tocando várias músicas em slide do George, e entre elas uma composição dele.
George sentou em uma poltrona com uma guitarra Gretsch no colo e ouviu a fita inteira de uma hora, e no começo ele achou que era alguma gravação pirata dele, até que eu expliquei a ele que era o Marcus em sua casa, com um equipamento simples, tocando as músicas dele.
Ele ficou perplexo e quis ouvir tudo.

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George Harrison e Mallagoli ouvindo a fita k-7 com as gravações do Rampazzo.
Note sobre a caixa de som na foto, a caixa da fita k-7.


No final, ele elogiou o Marcus e gravou isso em uma fita que eu tinha comigo, que depois eu dei uma cópia ao Marcus, além de uma foto promocional autografada pelo George.
Quando ele ouviu a música composta pelo Marcus, eu perguntei a ele o que ele achou e ele me disse: ”Parece muito Beatles”.
Acredito que do jeito dele, foi um elogio.

Ouça abaixo algumas das gravações que o Rampazzo fez e eu mostrei ao George, que acabou elogiando o nosso guitarrista:


 

 

 

 

 

 

Ausência

A ficha ainda não caiu, eu ainda o vejo no estúdio tocando ou nos palcos da vida, sempre com uma guitarra nas mãos.

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Rampazzo e a famos guitarra slide que pertenceu a John Lennon.

Nos últimos anos, após uma série de problemas pessoais que não vou citar aqui, pois acho que os culpados devem estar lamentando agora, ele entrou em depressão e isso afetou a vida dele, mas no palco ele, continuava o mesmo de sempre.
Foi tirado dele a banda “Beatles 4Ever”, pois ele foi covardemente expulso da banda, com a alegação de que não tocava mais como antes, e ele, na sua simplicidade, ficou quieto e deixou pra lá, mas sei que isso foi um dos grandes fatores da depressão que teve.
Era a banda dele, ele a criou.
Tanto que hoje em dia a banda ainda existe, mas sem ele não é nem sombra do que foi, e apesar de ainda usarem o nome dele, eles decepcionam a cada apresentação, pois quando as pessoas falam em “Beatles 4Ever”, a relacionam ao “Marcus Rampazzo”, e agora o sonho acabou de vez.
Acho até que eles deveriam encerrar a “carreira” e parar de vez, levando-se em conta que a cada dia, eles apenas deterioram o bom nome e a fama que o Marcus fez, e por consequência, os Beatles.
E usam indevidamente seu nome para isso.

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Foi noticiado que ele faleceu em função de um AVC, mas um dia ainda vamos saber a verdade sobre isso.
Ele teve uma vida de glórias e não merecia um fim desses.
Aliás, tenho certeza de que ele estará sempre em nossos corações e em nossa vida, e em cada acorde das músicas dos Beatles.
Não duvido se essas horas ele está tocando com George e John, onde quer que eles estejam, e isso me deixa um pouco “aliviado”, ao saber que ele, com certeza, agora está bem melhor do que estava aqui, e em boa companhia.
Apesar das saudades e da dor da perda.
Ele escreveu a vida dele para a eternidade em nossos corações através das músicas dos Beatles.

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There'll come a time when most of us return here (Vai ter uma época quando muitos de nós vamos retornar aqui)
Brought back by our desire to be (Trazidos pelo desejo de ser)
A perfect entity (Uma entidade perfeita)
Living through a million years of crying (Vivendo por um milhão de anos de choro)
Until you've realized the Art of Dying (Até você perceber a Arte de Morrer)
Do you believe me?
(Você acredita em mim?)

Letra da música “The Art Of Dying” composta por George Harrison e gravada no Álbum triplo de 1970, “All Things Must Pass”.