Olivia Harrison Revela que Ringo recentemente tropeçou em uma canção perdida de George Harrison

Olivia Harrison Revela que Ringo recentemente tropeçou
em uma canção perdida de George Harrison

 

Tradução e adaptação do texto por Marcia Maluf
Matéria da revista Billboard

 

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George Harrison fotografado em 30 de janeiro de 1976.  

Como um Beatle encontrou uma canção de outro Beatle nunca vista antes

George Harrison, o “Beatle quieto” foi na verdade uma força caleidoscópica da natureza. Suas canções e musicalidade – tanto com os Fab Four quanto depois deles – não apenas envelheceram bem, mas se tornaram clássicos consagrados no firmamento do cânone musical do século 20.

Sem "If I Needed Someone," "I Me Mine," "Something," "Taxman," "Here Comes the Sun," ou "While My Guitar Gently Weeps," os quarto teriam sido insuportavelmente menos fabulosos. O mesmo acontece com sua miríade de contribuições detonadoras, incluindo sua Fireglo Rickenbacker de 12 cordas usadas em Hard Day's Night, sua guitarra reversa empenada pelo tempo em "I'm Only Sleeping" e seu tamboura do plano astral em "Tomorrow Never Knows." O gênio de Harrison é melhor resumido talvez com outro exemplo de seu brilhante álbum: "It's All Too Much."

E isso nunca para. A principal obra de 1970 de Harrison após a dissolução dos Beatles, All Things Must Pass é recheada de sons sublimes. A harmonia bruta de "Apple Scruffs" poderia ter sido um clássico do Álbum Branco, sua prostração ante o universo em "My Sweet Lord", de alguma forma se tornou um sucesso básico (a despeito do frívolo litígio) e o refrão de "What is Life", não tem qualquer similaridade com qualquer coisa que ele tenha feito antes ou até então.

Alguns deles até se tornaram hits. Harrison ganharia 13 top 40 hits no Hot 100 da Billboard. Desses, cinco atingiram o top 10, incluindo três No. 1 com “My Sweet Lord / Isn’t It a Pity” (1970), “Give Me Love (Give Me Peace on Earth)” (1973) e “Got My Mind Set on You” (1988) enquanto que “All Those Years Ago” foi o hit No. 2 em 1981. Com certeza, canções como "Mind Set On You," "When We Was Fab," "All Those Years Ago" e "Handle With Care" dos Traveling Wilburys ainda estão nas FM, um tesouro digno da mesma profundidade de álbuns solo como a faixa-título de Dark Horse ou o pop soul "Can't Stop Thinking About You" de Extra Texture (Read All About It).

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George Harrison em um concerto em Copenhagen em dezembro de 1969.

O sucesso de Harrison se deveu em parte por seu esforço tanto criativo quanto pessoal. Como é atestado pelos produtores George Martin e Phil Spector, o Beatle quieto era perfeccionista no estúdio lidando de forma meticulosa com canções e partes, até atingir aquilo que ele desejava. Da mesma forma focada, ele submergia totalmente em uma exploração duradoura do espiritual, inefável e divino.

Sua produção criativa foi muito certamente ampliada pelas brilhantes companhias que ele manteve. Sua ampla variedade da confraria e colaboradores incluíam desde Ravi Shankar Eric Clapton Billy Preston e Roy Orbison até o corredor de carros Jackie Stewart e o pessoal do Monty Python, além de Klaus Voorman de Hamburgo e o jornalista que se tornou assessor de imprensa dos Beatles, Derek Taylor, entre tantos outros.

Tudo isso se refletiu na festa de aniversário dos 74 anos do Beatle, onde a esposa de Harrison, Olivia e seu filho Dhani recepcionaram convidados na Galeria Subliminal de Los Angeles. Embora o evento marcasse ostensivamente o lançamento da nova "edição estendida " das memórias clássicas de Harrison dos anos 80 I Me Mine (Genesis Publications) com novas letras, escritos, fotos e uma linda capa do artista Shepard Fairey, juntamente com uma nova caixa com 13 álbuns vinil, George Harrison-The Vinyl Collection (UMe) contendo todo seu trabalho solo remasterizado —a noite pareceu um lançamento.

Aqui, abaixo de imagens vintage de Harrison, suas letras e palavras iluminadas penduradas nas paredes da galeria, libações fluindo livremente com sets dos DJs Fairey e Chris Holmes, de Yum-Yum e DJ de Sir Paul, (e a edição limitada de Harrison da Wheels of Steel num cenário descontraído e alegre. Isso foi certamente ampliado pelo desfile de estrelas/bem aventurados que enchiam o ambiente, como Ringo Starr, Barbara Bach, Jim James, Joe Walsh, Eric Idle, Drew Carey, Jakob Dylan, Black Sabbath's Geezer Butler, Susanna Hoffs e Vicki Peterson dos Bangles', Nick Valensi e Nikolai Fraiture dos Strokes e, é claro, Weird Al Yankovic...

A Billboard se encontrou com o amor da vida de George Harrison, Olivia, que nos concedeu uma graciosa entrevista que incluiu os inesperados locais onde as letras de George nasceram (a banqueta do piano de Billy Preston!), suas canções favoritas de George e a maravilhosa surpresa que Ringo recebeu na abertura.

Billboard: Como você se sente sobre a nova edição estendida de I Me Mine?
Olivia Harrison: Adorei. O livro está da forma mais completa que conseguimos fazer. Levei três ou quatro anos tentando fazê-lo. Você olha aquelas imagens e diz "O que é isso?" Alguém na Universal disse que as pessoas passam e olham o pôster e dizem: "Qual a história por trás disso’?"

A imagem da capa é deslumbrante.
É apaixonante. E não é fácil descobrir uma imagem como aquela. Gosto do tratamento gráfico dela. Shepard Fairey conseguiu capturar algo. É difícil tirar os olhos dela.

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Capa de "I Me Mine: The Extended Edition" de George Harrison.

Como são as 50 páginas com as novas letras na edição estendida?
Há letras que George descobriu antes que eu não sei onde ele encontrou, e eu encontrei muitas mais tarde. O livro foi feito em 1980, e assim, ainda havia quatro ou cinco outros álbuns depois daquele. Tentei encontrar uma letra para combinar com cada canção dos álbuns após a primeira edição do I Me Mine, e isso foi a base de tudo. Achamos letras que iam até 2000.

Onde você encontrou essas letras e escritos?
Alguma coisa do trabalho de George estava em armários. Você sabe como é, você está sentado em sua mesa de trabalho ou em outro lugar escrevendo letras, e você coloca papeis dentro de gavetas. Você as enfia em algum lugar. George tinha uma mesa no estúdio e mesas no andar de baixo, no armário da cozinha, em qualquer lugar. Não é como se você sentasse em uma mesa nos dias de hoje com um laptop tentando escrever alguma coisa. Ele poderia estar andando por aí, tirar um pedaço de papel do bolso e depois terminar em outro lugar. Poderia prender em um livro ou deixar em alguma gaveta. Achamos alguma coisa no banco do piano de Billy Preston.

Espera aí, verdade?! Banco de piano do Billy Preston? 
Ele costumava tocar muito com o George em seu estúdio em uma casa na Inglaterra, e ele tinha o B3 [Hammond] do Billy. Nós o chamávamos de "Billy's B3." O Billy se sentava e dançava naquele banco e nos pedais daquele órgão. Ele realmente fazia isso. O assento dançaria por ali, era o máximo. Um homem doce. Tão gentil e que talento. Ele obtinha toda fluidez naquele órgão, na verdade, em qualquer teclado.

Onde isso aconteceu?
Em Friar Park, Oxfordshire. George tinha um estúdio lá.

Como você encontrou?
Ninguém havia aberto aquele banco durante um bom tempo — anos — e havia pastas. Aí, quando finalmente eu fui lá e abri o banco do piano, havia depoimentos, letras e partituras para cordas que datavam de não sei quando, provavelmente da época de All Things Must Pass. Eu costumava simplesmente fechar a tampa sobre essas coisas, porque não queria tirá-las de lá e perturbá-las. É como uma cápsula do tempo. Você não quer perturbar nada, mas acabei encontrando as letras e um monte de notas. A canção "Wake Up My Love" estava lá, isso foi para o livro, e não estava antes dessa edição expandida.

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Olivia e Dhani Harrison no lançamento do livro "I ME MINE" de George Harrison na Galeria Subliminal Projects Gallery em 25 de fevereiro de 2017 em Los Angeles.

Sei que ele não era muito materialista, mas guardava um monte de papeis?
Você sabe, se você vive em uma casa, você acaba pondo suas coisas em sua casa. Ele viveu lá a partir de 1970, e por isso, naturalmente tudo estava lá. E havia arquivos anteriores, sabe como é, são suas coisas.

Quando você descobriu as letras no banco?
Eu havia estado lá, mas é o estúdio dele. Você não vai vistoriando tudo, mesmo se está em sua casa. Eu não vasculhava os papeis dele e ele não vasculhava os meus (risada). Sei que foi depois que ele faleceu, em algum momento nos últimos dez anos. Eu estava arquivando e tentando olhar essas coisas, mas havia muita coisa a fazer.

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Livro "I ME MINE" e  posters

Como o que?
Em 2002 fizemos o concerto para o George, e depois fizemos um livro e colocamos seu Dark Horse Years Apple Years. Fiz o documentário e o livro. Foi apenas um trabalho de arquivamento do que George havia deixado. Não foi realmente uma tentativa de vir com uma ideia do que fazer, é como uma lição de casa que ele deveria ter feito e ele tinha intenção de fazer. Como o vinil que acabou de aparecer. Ele teria feito aquilo, na verdade, ele estava no processo de remasterização de seus álbuns. Em 2000 ele teve All Things Must Pass, Material Wold e Dark Horse e os remasterizou em ordem cronológica.

Você ajudou na remasterização e reembalamento do vinil também?
Dhani e Paul Hicks fizeram isso. Gavin Lurssen fez a remasterização. Foi confiado ao Paul, e ele trabalhou com Giles Martin [filho de George Martin] em The Beatles e Love show. Ele trabalhou para o Paul [McCartney] e Yoko também. Mas Paul e Dhani fizeram a maior parte. Certamente não quero ser a ouvinte final disso.

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A nova coleção em vinil de George Harrison

Qual sua canção favorita de George?
Bom, eu sempre digo "Run of the Mill," mas há muitas mais.

Como é ver letras para canções como "Dark Sweet Lady," que é sobre você, certo?  
É. Todas essas canções parecem dizer "Seu amor é para sempre", como está na linha "Sublime é o cálido verão e preguiçoso /Esses são dias perfeitos, como se o paraíso fosse aqui". Isso é muito pessoal para mim, porque acho que de alguma forma, nós éramos, e foi lindo e cálido, não havia pressão ou ansiedade. Aqueles momentos em sua vida quando tudo é suave e lindo, e você realmente pode ser a melhor versão de si mesmo e quem você quer ser. Canções como aquela tem um significado especial para mim. Todas são, mas aquela, "Sublime is the summertime..."
 
Você lê as letras dele com frequência?
Não as leio muito, porque conheço bem. Estou feliz porque pudemos encontrar aquelas e encontras comentários que George fez sobre elas. Nós retrocedemos e descobrimos textos onde ele falava de cada música. Acho que talvez há só uma ou duas que não pudemos encontrar um comentário.

Leon Russell não aconselhou você a anotar todas as admiráveis coisas que George dizia? 
O próprio George anotou muito de seus pensamentos. Algumas vezes uma simples sentença que havia acabado de pensar: "O que isso significa? 'Cabras no meu telhado' o que isso significa?" ou 'Quando você elimina tudo, fica apenas o amor'". Que é uma linha muito bonita que ele escreveu no bloco de um hotel.

Algumas de suas canções como "Here Comes the Moon," são poesia. 
Amo aquela, ela é linda. Aconteceu de ser uma daquelas noites em que a lua cheia estava nascendo sobre uma linda baía. Ele estava meio relutante, "Ah, não, veja, aí vem a lua, vão me matar se eu escrever isso " por causa de "Here Comes the Sun," é claro. Mas foi irresistível e acho que é uma canção rica e linda. Quando ele diz "Parece um irmão menor do sol " [cantando], para mim, sua voz soou tão sexy e bonita. É uma imagem maravilhosa.

Ao ler o livro, fiquei impressionado com o humor do George. Você diz em sua introdução que ele "Citou a grande sabedoria do Swamis, o Bhagavad e o ancião Vedas, bem como o humor de Lord Buckley, The Goons, Lenny Bruce, Mel Brooks e Monty Python." 
Eles dizem que todos em Liverpool são comediantes, e eles com certeza têm um tipo diferente de humor no Norte, e eu acho que foi parte disso também.

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Olivia e Dhani Harrison no lançamento do livro "I ME MINE" de George Harrison

O humor liverpooliano.
Ele sempre disse que você precisava ter senso de humor e correr bem rápido.

Pareceu que ele teve um tempo bem difícil na escola em Liverpool.
Ele não progrediu na escola e nunca sentiu que o encorajaram. Na verdade, ele sentiu o oposto disso, como "Uau, se isso é assim eles tentam ajudar você a progredir na vida, bom, isso não é muito bom". Ele sempre teve um pouco de ressentimento, mas sempre sentiu que eles poderiam ter dado mais apoio e realmente ensiná-lo algo. Mas, quem sabe, ele simplesmente não progrediu. Ele dizia que o único professor de quem ele realmente gostava era o professor de arte.

Parece uma prisão.
Não se esqueça: era a Inglaterra. Houve racionamento até os anos 50. Liverpool foi bombardeada e era bem sinistra.

Vi no livro onde ele dizia algo como "Vi isso na universidade aberta" – ele estava inscrito em algum tipo de aulas on-line?
Não! Na Inglaterra costumava haver Universidades Abertas no canal de TV BBC ou algo do gênero. Algumas vezes, você se sentava lá e ligava e acabava assistindo alguma aula de ciências. Você pensaria "O que é isso? Ah! Estou assistindo a Universidade Aberta".

Você o conheceu porque trabalhou na gravadora Dark Horse, certo?
Foi menos de um ano.

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Olivia Harrison, Barbara Bach e Ringo Starr participando do lançamento do livro "I ME MINE" de George Harrison
na Galeria Subliminal Projects em 25 de fevereiro de 2017 em Los Angeles.

"All Those Years Ago” é a nova edição e uma de suas canções mais populares, o que você se lembra com relação a ela?  
George estava escrevendo essa música bem nos dias em que John morreu. Ele queria que ela dissesse algo sobre John, mas não queria que fosse muito triste. Quero dizer, não seria uma lamentação, mas com certeza, ele foi claro sobre o que sentia sobre John.

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Joe Walsh, Olivia e Marjorie Bach

Eu li que ele entrava em um estado de quase transe ao escrever uma canção, e meio que saía do mundo enquanto procurava acordes, e algumas vezes você escrevia letras. 
Algumas vezes eu escrevia. Algumas vezes, se ele estava tocando guitarra, ele dizia algumas letras, e se ele não tivesse uma fita cassete, eu tentava fazer o papel de recitadora de mantras [risadas], sabe como é, reproduzindo o que ele dizia para que ele não esquecesse. A maior parte do tempo ele dizia: vai e pega o gravador.

Como era quando ele estava naquele estado?
Não era um transe. Era como "Oh, acabei de ter uma ideia " e uma lâmpada acendesse e ele também. Não sou compositora, portanto, não posso explicar, mas tenho certeza que todos com uma ideia como você, como escritor, vai entender, "ahhhhhh, preciso captar isso." É o mesmo em todo processo criativo.

Alguns dizem que a inspiração vem do céu ou talvez de uma musa ou das pessoas à sua volta.
Algumas vezes ele tocava alguns acordes, e ele dizia "Isso é alguma coisa? " Se fosse algo, ele iria em frente, ou "Não, não acho." Conheço um monte de canções que remontam à década de 50. Algumas vezes eu dizia que era algo para o qual ele dava apenas uma olhada [risadas].

Foi adicionado algo no livro que venha dos primeiros tempos?
Algumas canções remontam aos anos 60, como "Mother Divine" e talvez "Dehra Dun" – acho que essas são do início, talvez 1966, quando eles foram à Índia.

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Olivia no lançamento do livro "I ME MINE" de George Harrison

Do novo material, qual o seu favorito no livro?
Alguma coisa em direção ao final em Brainwashed, há pequenos diagramas e palavras e sentenças onde ele tenta explicar um pouco mais sobre conscientização e o que é o que, aquele tipo de destaque para mim. Adicionamos cerca de 50 letras e tentamos começar do final. Provavelmente, há algumas páginas flutuando aqui e ali que não estão lá, e provavelmente elas verão a luz do dia em algum momento.

Há alguma revelação no que você descobriu?
Sim, como a canção "Hey Ringo." Ringo nunca tinha visto até sábado passado [na galeria/loja]. Ele disse "Hei, não tinha visto isso antes." E eu disse que eu também não. Acho que estava no banco do piano em um envelope. E havia uma canção chamada "Hey Ringo" que eles acham que é de 1970 ou 1971. Ela é doce. Vou mandar enquadrar e dar a ele, porque é muito doce. É como "Hey Ringo, ou algo assim, "Sem você minha guitarra soa muito mais lenta." Isso foi uma grande revelação e surpresa. Ringo ficou totalmente surpreso e feliz. Que presente ter todos aqueles anos passados.

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Jacob Dylan e Dhani Harrison no lançamento do livro "I ME MINE" de George Harrison